Sempre gostei de tecnologia e tenho um amor muito especial com programação de software. Então o interesse em experimentar coisas novas levou-me naturalmente a me aventurar nos mares do Linux.
A primeira distribuição que comecei a testar era uma Red Hat 3.0, datando de meados de 1998-99, se não estou enganado. Naquela época o Linux estava começando a dar seus primeiros passos rumo a popularização, mas ainda era coisa só para deep nerds.
Passado aquela empolgação inicial, começaram os problemas. Lembro-me de ter perdido muitas horas testando e tentando fazer as coisas basicas funcionarem. Uma coisa que nunca funcionou foi acesso a Internet. Então, muito relutante e com o orgulho ferido, desisti do Linux de vez e voltei para o Windows.
Minha esposa, que nos meus tempos do Red Hat ainda era minha namorada, acompanhava minhas alegrias e frustações nas aventuras do mundo Linux (namorada de geek é isso ai.). Ela é uma usuária avançada, mas não uma usuária técnica, não dada a instalação de sistema operacional e configurações mais complicadas.
Passados uns anos, tomei coragem novamente e decidi experimentar uma distribuição do Linux chamada Ubuntu. Logo me conquistou pelo LiveCD, extrema facilidade de instalação e quase zero configuração. Após instalado, a primeira coisa que testei foi a conexão com a Internet (claro!) e para minha agradável surpresa, funcionou de prima!
Super empolgado, mostrei o Ubuntu para minha esposa, e a sua reação foi “legal…”. Confesso que fiquei indignado, como assim “legal…”?! Vou instalar o Linux na sua máquina, ai você vai ver como é mais seguro, melhor que o Windows blá, blá, blá. Ela me disse “ainda prefiro o Windows, eu não sei mexer nesse troço ai, é coisa de nerd”. Caramba, não acredito, ela prefere o Windows como pode?!
Fiquei pensando nisso, por que ela rejeitou o Ubuntu sem mesmo ter experimentado? Por que ela tem medo do Linux? De quem seria a culpa? Uma coisa tenho certeza, méritos do Windows é que não era.
Comecei a ter algumas idéias para essas perguntas quando, num forum da internet sobre Linux, na assinatura da pessoa estava “Linux, para quem não tem preguiça de aprender“. Achei meio arrogante isso.
Por esse raciocínio, quer dizer que a minha esposa teria preguiça de aprender coisas novas? Tenho certeza que não. Meu filho acabou de nascer e nós, principalmente ela, tem aprendido muitas coisas. Não é porque ela não quer aprender como configurar a rede wireless usando linhas de comandos, WPA, iwconfig, iwpric, etc., quer dizer que ela é preguiçosa.
Não estou generalizando, não quero tirar os méritos daqueles que perdem (prefiro dizer, investem) horas fazendo as coisas funcionarem no Linux, afinal eu sou uma dessas pessoas, mas a comunidade Linux tem uma cisma de que usuário de computador tem que gostar de operações mirabolantes para somente configurar um simples driver de video.
O Linux é um sistema operacional maravilhoso (isso no nível do seu kernel), rubusto, estável e seguro, conseguindo atender aplicações críticas de negócio, sistemas embarcados e até equipar desktops em nossas casas e mesas de trabalho. Mesmo assim, ainda não conseguiu ainda nem arranhar o mercado do Windows. Por que isso?
Se quizermos que ele apareça cada vez mais as nossas casas e mesas de trabalho ele deve perder essa fama da coisa de nerd, na qual você precisa ser expert para instalá-lo e configurá-lo.
Infelizmente, o Linux ainda faz por merecer essa fama e não é culpa é dele, mas da comunidade em si. Ela parece sofrer do que eu chamo de miopia de programador.
Veja por exemplo, o caso da linha de comando. A linha de comando é uma ferramenta poderosa para acessar funcionalidades que a interface gráfica não cobre, fazer tarefas repetitivas e muitas outras coisas, mas não é nada para a minha esposa. A linha de comando precisa estar sempre disponível mas sem obrigar o usuário a usá-la.
Minha esposa não acha graça nenhuma na linha de comando, muito menos a maioria dos usuários Windows. Então por que dizer que no Linux você tem a linha de comando onde permite você configurar coisas lindas sendo que o usuário não dá a mínima para isso?
Outro exemplo, configuração wireless. Pege o Ubuntu. No CD de instalação você encontra muitos jogos e aplicativos para desenho, mas se você quizer acessar a internet usando uma placa wireless com encriptação WAP (coisa mais comum do mundo), você precisa se embrenhar na selva da configuração iwconfig, linhas de comando, arquivo de script de inicialização e outras coisas temíveis para o usuário. Além disso, você precisará instalar outros programas, que estão precisam ser baixados da Internet!
Na minha avaliação a brazuca Dreamlinux é uma das melhores (se não a melhor) e está muito próxima do usuário, mas ainda incorre em alguns erros, talvéz causados por essa miopia. É uma instalação que já vem com Beryl (que é um gerenciador de janelas que possibilita alguns gracejos para deixar seu vizinho com inveja), programas gráficos, de som e vídeo, com uma interface muito bonita e objetiva.
Mas por que tenho que ir para “temível” linha de comando para configurar meu driver de vídeo? Bem, o Xfce exige isso, seu burro! Minha esposa responde: Então fico com o Windows. E daí que o Xfce exige que saia do ambiente gráfico, eu quero é ver meus e-mails, navegar pela internet, editar um texto ou planilha, não quero ter que digitar um comando que eu não entendo que irá fazer uma coisa que também não entendo.
Esses foram somente dois exemplos de configurações rotineiras que afugentariam facilmente um usuário não técnico do Linux.
Minha sugestão a qualquer distribuição, cuide do básico (video, som, teclado e rede) mas facilite a vida do usuário caso ele queira alguma coisa mais excêntrica, como servidores web, arquivo, programas gráficos, video e som.
O Dreamlinux é genial nisso. Ele tem uma ferramenta chamada Instala-fácil. Sensacional! Com um clique ou dois você pode instalar o Picassa da Google, Firefox 2 ou o Flash 9 para Linux. Um script, totalmente transparente para o usuário, baixa e instala o programa. Realmente muito acessível para um usuário não técnico.Então, pessoal do Dream, libertem-se da miopia de programador e cuide de deixar o computador perfeitamente funcional. Ai o usuário poderá escolher quais aplicativos ele irá instalar, depois que ele já tiver lido seus e-mails (usando wifi de sua casa), ouvido algumas músicas, visto alguns videos no YouTube e até ter pesquisado sobre os programas que ele precise. Promovam o Instala-fácil!
Pessoal das outras distros, aprendam com o pessoal do Dream.
Para todas as distros, pensem no usuário. Aprendamos todos com o Steve Jobs. Vi inúmeros vivas da comunidade anti-Microsoft quanto um e-mail de Jim Allchin (”dono” do Windows), dizendo que se ele não trabalhasse na Microsoft ele teria um Mac, vazou para a Internet. Mas essa mesma comunidade não segue a filosofia Apple e nem a crítica de Jim.
Não percam o usuário de vista. Abaixo a miopia de programador!
Se o Linux prega a liberdade no mundo da informática, porque defende a unhas e dentes que os usuários de Windows devem largar tal SO e passarem a utilizar Linux?
Pense nisso!
[...] Sobre o Título ← Minha esposa prefere o Windows?! [...]
Ótimas conclusões.
Como é que são as coisas né, tenho uma história parecida. Porém para minha felicidade, minha esposa quando começou a usar computador em sua rotina diária o que tinha disponivel era o Slackware 7.0 com o Gnome.
Então em um notebook comprado a uns 2 meses que veio com Windows XP, sua primeira solicitação foi “Instala o linux para mim”. E depois de usar o Windows por um mês mais ou menos, ela já estava falando “Ou apaga esse negocio logo e instala o Linux”. No final de semana passado seu notebook HP Pavilion DV6000 ganhou um Gentoo do zero, inclusive com as frescuras do Beryl.
Agora eu também uso o notebook, quem mandou ela insistir tanto para instalar o Linux nele.
Sensacional ! O teu insight é perfeito e gostaria que os desenvolvedores linux lessem com critério e distanciamento a tua matéria.
Concordo com quase tudo, mas discordo num ponto: O que impede o Linux de ser totalmnte out-of-the-box são padrões proprietários.
Não que ele não os cubra, o problema é que algumas empresas simplesmente se negam a facilitar as coisas – algumas coisas dependem de patentes. Pra instalar minha Lexmark no meu Ubuntu, foi uma novela, que ainda não acabou. Eu não reclamo: eu quero aprender, mas tem gente que não quer, tem gente que não é geek como eu, tem gente que não come-dorme-vive computador como eu. Tem gente que é assim, fazer o quê?
Só que os louros não são do/a Windows/Microsoft. Ele simplesmente é um padrão imposto, pensam que se não roda Windows, não é bom. Vi uma frase num blog espanhol sobre Mac OS X (uma outra paixão minha – sou linuser em parte por ser applemaníaca pobre) que me lembrou que o problema do Linux na verdade está na comunidade. A frase era: Lembre-se sempre, não somos uma seita, não somos uma seita!
Dica: ouça o podcast do IDG Now! que tem uma entrevista com o editor do BR-Linux.org. O cara é demais! Ele é o linuser que todo linuser deveria imitar. Tem idéias bem parecidas com as do Torvalds, que ao contrário do que todo mundo pensa, não é um xiita. O cara tem a mente aberta, fala na cara os problemas do Linux, não tem aquela de “seja livre, use Linux”, que é o reefrão que os linusers adoram.
Ficou gigante, então paro por aqui. Mas o mais legal de ser applemaníaco ou linuser é as piaadinhas que você pode fazer com Bill Gates e sua empresa! Hahahaha!
3 motivos porque não uso Linux em casa:
1. Não quero usar uma plataforma diferente do que uso no meu trabalho e um dia, no meio da noite, não consigo trabalhar em algum arquivo que me enviaram de lá.
2. Jogos ! Adoro jogos…
3. Photoshop. O Gimp é bom, sem dúvida, mas tá uns 5 anos atrasado em relação ao Photoshop…
Espero não ser atacado por hordas de nerds…
conecção!?
diz-se conexão…
Eduardo, acima, tente utilizar o GIMPshop… acho que vai gostar. Sobre os jogos, dá pra rodar muitos com Wine, pode ser díficil para iniciantes, mas dá cara. Sobre a primeira suposição pode até ser, mas você pode manter Linux e Windows no mesmo computador com Dual Boot e aproveitar o melhor dos dois sistemas… também já tive problemas para abrir arquivos de um programa de contabilidade.
“conecção” corrigida…. obrigado!
[...] algumas semanas li este post de autoria de Flavio Furlan onde ele, em dado momento, questiona alguns membros da chamada [...]