Por que o Wikipedia dificultou a vida dos professores.

20 02 2007

Na semana passada, na edição 431 da Revista Carta Capital, saiu uma reportagem sobre o Wikipedia, intitulada Referência Fast-Food, onde a revista critica a falta de zelo do site com relação às informações dos verbetes, mostrando uma série de exemplos onde misturam-se informações erradas, partidarismo, panfletagem e outra série de imperfeições que tiram a credibilidade das informações do site.

Na minha época (tenho 28 anos), tinhamos em casa a coleção completa da Barsa. Quando tinhamos de fazer um trabalho de escola, esse era o primeiro (e único) lugar onde iríamos procurar sobre o assunto. Era somente copiar o que estava lá para uma folha de almaço e entregar o trabalho.

Hoje as coisas são bem diferentes, temos a Internet, Google e Wikipedia.

De acordo com a reportagem, uma das críticas ao Wikipedia é o fato de que os alunos agora não copiam mais para uma folha de almaço, simplesmente copiam, colam, imprimem e entregam o trabalho, nem mesmo se dando ao trabalho de ler o que estão entregando.

Mas qual a diferênça entre o que os alunos fazem hoje com o que eu fazia antigamente? Continuamos copiando o texto, sem entender ou aprender nada. O fato de você copiar para uma folha de papel não quer dizer que você vai aprender mais do aquele que usou o control-c-control-v.

Quando o aluno copiava o texto da Barsa, Mirador ou outra enciclopédia qualquer, o professor sabia que o conteúdo daquilo era confiável, então era mais fácil corrigir. Conte o número de páginas e dê a nota, proporcionalmente. Fácil!

Agora, os alunos estão copiando do Wikipedia e essas informações não são confiáveis, já que não se sabe a reputação do autor. Então o professor não pode mais confiar cegamente no que ele está recebendo do seu aluno, agora ele tem de ler o trabalho todo. Não somente ler, mas precisam entender do assunto para corrigir as falhas nas informações.

Seria muito arriscado ele dar nota para um punhado de folhas impressas, correndo o risco de endossar com uma boa nota um monte de baboseiras que o aluno copiou do Wikipedia.

Pois é professores, agora vocês têm que saber do assunto do trabalho também.

Então como resolver isso? O invés de pedir para o aluno copie um monte de informações que com certeza ele não irá reter, que tal propor ao aluno assuntos, onde ele tenha que defender uma opinião e embasar seus argumentos em informações que estão disponíveis na Internet ou qualquer outra fonte de informação? Não é assim que funciona na vida?

E se o aluno baseasse seu argumento em uma informação errada oriunda de algum site que ele achou no Google? Azar! Nota baixa para ele. Ele tem de aprender a confrontar as diversar fontes disponíveis, discenir entre o que é certo ou errado e somente aí tirar as suas conclusões.

Será que com isso, não teríamos estudantes mais interessados nos assuntos da aula, vendo o propósito de saber aquelas informações nas quais fazem parte da disciplina estudada. Ou será que não é mais interessante termos um bando de acéfalos, sem o menor senso crítico mas com acesso irrestrito à informação através da Internet?

É mais fácil culpar o Wikipedia, a Internet e o aluno.

Fazer o aluno pensar exige muito preparo por parte dos professores. Eles também precisam pensar. E isso não parece ser a atividade preferida da maioria das pessoas.

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21 responses

20 02 2007
Fernando Lemos

Muito bom o post. Concordo plenamente. Não somos mais inteligentes por termos nascido antes da internet. Colocar a culpa na internet e ficar procurando falhas nela, é fácil, admitir que vc é mais preguiçoso que seu aluno, é difícil…

20 02 2007
ALEXSANDRO

vlw

20 02 2007
Eduado

O pior de tudo é que 99% dos professores não tem condições de avaliar se as informações que estão nos trabalhos estão certas ou erradas. Apesar do problema ser maior na rede pública de ensino, as melhores escolas particulares não estão livres de problemas.

Mas acho que 2 coisas são importantes para os professores: eles devem ser capazes de avaliar a exatidão das informações ao mesmo tempo que ensinam aos alunos como avaliar a procedencia das informações garimpadas na net.

21 02 2007
Diego Cardoso

Muito interessante o texto, legal também o que vejo em alguns trabalhos da escola: Os professores pedem que você coloque as fontes de pesquisa do texto, assim facilita a correção deles.

Execelente post.

21 02 2007
OLE

Eu achei o texto bm, até a hora em banaliza a profissão do professor!

Não sou professor, esse ser que ganha tão pouco para aguentar absurdos que eu ouço(leio). Aliás, estou falando do professor ser humano, o que não sabe tudo, o que não tem o poder sobre todas informações do mundo, o que é apenas um professor, alguém que se formou para passar alguma informação específica!!!
Talvez vcs estejam falando de extra-terrestres ou alguma máquina capaz de corrigir informações granulares da Wiki!

Detesto exageros e generalização! Podia aqui xingar todos os blogs e todos comentários por causa disso aqui, mas prefiro me restringir apenas à idéia: um preconceito nojento!

26 11 2009
jose carlos

o professor é como qualquer trabalhador, ganha o seu salário e deve cumpli-lo por amor; como tudo deve ser feito com amor,existem pessoas competentes e pessoas imcompetentes, que fiquem os competentes e pronto.

21 02 2007
Flávio Furlan

Caro OLE,

Lamento você ter enxergado exageros e generalizações no texto. Em hipótese alguma eu critico os professores como profissão ou classe profissional, eu apenas critico o posicionamento que alguns professores estão tomando com relação ao Wikipedia e a Internet.

Quero chamar a atenção para o fato que é muito fácil culpar o Wikipedia pela má qualidade dos trabalhos apresentados.

Eu também não digo que os professores devam saber tudo de tudo, mas ao se propor a “passar alguma informação específica” ele deveria se preparar o mínimo suficiente para poder avaliar tal informação de alguma fonte na web.

Não sou professor profissional, mas já lecionei em sala de aula. Sempre procurei me preparar para a aula e conduzir meus alunos a pensarem nas implicações daquelas informações que estou passando. Não apenas expor a matéria. Para fazer isso, o tempo de preparo de uma aula de 30 minutos excedia não menos de 2 a 3 horas.

Daí meu parágrafo final. Para fazer os meus alunos pensarem, eu tinha que pensar muito e a tentação de apenas fazer uma aula expositiva era muito grande.

Um forte abraço!

21 02 2007
pautadodia

cara, excelente…
minha barsa era incompleta ainda por cima, pois “herdei” de um primo meu.. dae antes de tudo era torcer para que o assunto do trabalho fosse de um dos livros q eu tinha.. to com 24 anos e acho q vc tb pegou as aulas de geografia q tinha q se usar papel vegetal para entregar mapas, estes desenhados por cima de um atlas… nao sei se ainda se faz isso…
abracao e show de bola seu blog

21 02 2007
Ph.X

Você citou um dos problemas da Wikipédia, mas esqueceu dos problemas da Barsa. A Wikipédia em português ainda está caminhando, e não chegou ao nível de qualidade da Wikipédia em inglês. Mas a Barsa não tinha a abrangência que a Wiki tem, não continha informações atualizadas e era muitas vezes sucinta demais. Na corrente “era da informação” uma enciclopédia escrita não comporta mais tudo o que há de conhecimento atualizado.
Na nossa Wikipédia faltam colaboradores que entendam dos assuntos propostos para corrigir informações lá colocadas por amadores. E quando eu digo que a Wikipédia é nossa, é porque realmente é. Ela está sempre aberta a colaborações, de forma que os próprios professores insatisfeitos deveriam colaborar com a Wikipédia, inserindo lá correções que acharem necessárias.

E quanto aos trabalhos de [ctrl-c ctrl-v], concordo com você, e acho que os professores pecam ao somente mandar os alunos entregarem folhas impressas, sem o cuidado de ler e responder um questionário, por exemplo. Os professores têm de encontrar um jeito de fazer os alunos analisarem as informações, ler criticamente. Os professores que têm preguiça de fazer isso são os mesmos que culpam a Internet pelos alunos entregarem trabalhos copiados.

21 02 2007
Kurt

você está 101% certo, não sei como era antigamente (num era nascido), mas atualmente, é simples demais ir na wikipedia e colocar: “tecnécio” (eu fiz um trabaio desse de química) vir a resposta, ctr+c, iniciar, todos os programas, word, ctrc+v, imprimir, ok, fechar. Acho isso ridículo, e também cara, atualmente os professores têm que verificar se o aluno copiou-colou, ou se ele entendeu, claro que 99,9% dos alunos copiam e colam, mas eles agora tem que comprovar isso. eles que se fod… éé, que se danem…..

21 02 2007
Farley

Gostei muito do seu texto. É importante a reflexão sobre quem é o culpado nessa história. E infelizmente existem professores que não se importam em encontrar maneiras alternativas de cobrar algum assunto específico, de fazer o aluno realmente ir atrás de informações e de defender argumentos.
Na falta disso a culpada é a internet e sua vasta fonte de informação…

21 02 2007
angelo

Que diferença faz se o individuo copiou algo da tal Barsa ou do site Wiki?
Os caras que se ferram fazendo Ctrl+C e Ctrl+V também se dariam mau se copiasem a mão alguma coisa de um livro, eles não estão preocupados com o conteúdo, somente com a nota.
Me chamou muita atenção essa parte do texto:

“Então o professor não pode mais confiar cegamente no que ele está recebendo do seu aluno, agora ele tem de ler o trabalho todo.”

Então quer dizer que só porque o cara copiou tudo da Barsa ou outra fonte “confiável” que o professor não precisaria ler tudo?
Desse jeito concluo que numa sala de aula com 40 alunos que dão Ctrl+C e Ctrl+V nos seus trabalhos, tem 41 preguisos…

22 02 2007
Leonardo Amaral

Gostei bastante do texto, e concordo plenamente. A única forma eficaz de se apreender a informação é no minimo sabendo discuti-la, formular hipóteses sobre ela, podendo o individuo gostar ou não.

E não é a wikipédia ou o google que são os responsáveis. Ninguem da wikipédia declarou que o objetivo era ser massivamente correto, mas sim onde as informações eram coletadas pelos usuários. Não substitui nada, só acrescenta.

25 02 2007
Gustavo

O grande problema está na falta de interesse do aluno. E não penso que o que você disse sobre os professores é em todo verdade. Se os alunos tivessem mais interesse quando fosse passado certos temas de trabalhos, não procurariam somente em uma fonte, no caso a Wikipédia hoje. Sempre que faço trabalhos eu procuro ler o artigo na Wikipédia, e não faço uma cópia redundante, copio apenas o essencial para o trabalho. O grande problema do aluno brasileiro, e do próprio brasileiro, e o fato de não gostar de ler cara, e não ter o mínimo interesse por isto. A minha Barsa, por exemplo, comprei-a em 2002, mas pra falar a verdade eu a usei muito pouco para trabalhos escolares, mas sempre a pegava e ia folheando até achar alguma coisa que me interessasse, e passava ali horas e horas folheando a Barsa, os meus artigos preferidos eram Rússia e Computador ;-). Podem me chamar de Nerd, eu não me importo. A problemática é a falta de interesse por conhecimento de muitos. Nesse mundo em que vivemos hoje, o conhecimento extra é tão grande e rápido, que acaba se tornando desinteressante para muitos, preferindo o entretenimento que a Internet pode oferecer.

A Wikipédia hoje somente reune tudo que se encontrava a alguns anos atrás na Internet em uma busca pelo Google, mas em várias pequenas páginas diferentes (mas com uma marcação e seleção mais organizada), tanto que muitos artigos sobre muitas coisas que são colocados lá são retirados de alguma outra página ou PDF, o artigo Internet por exemplo. Todos nós sabemos disso…

10 07 2011
Rafael Coelho

Olha, foram feitos estudos que mostram que a Wikipedia tem tanta credibilidade quanto a Barsa. Se quiser, é só pesquisar.

Concordo a crítica com relação a “cultura do ctrl-c/ ctrl-v”, mas sua crítica quanto a credibilidade do Wikipedia eu discordo totalmente.

6 09 2007
Monografia AD

Apesar da conceituação e da proposição do ideal do Wikipédia, o simples fato da modificação ser instantânea, demonstra a instabilidade da informação contida ali. Há uma discussão acadêmica ligada justamente ao papel da bibliografia em um trabalho científico ou monografia.
Via de regra, a importância da citação é a possibilidade de se buscar a mesma fonte, ou seja, a repetibilidade da informação. Quando esta mesma é mutável, este aspecto prioritário se altera negativamente.
Outro aspecto que também não pesa positivamente quanto à utilização do Wikipédia como fonte bibliográfica é a anonimidade.
Sempre que possível, deve-se supor a utilização de artigos indexados (justamente pela maior fiabilidade e facilidade de obtenção) e livros de autores renomados.

Luiz Gustavo
Piracicaba
http://www.monografiaad.com.br

14 10 2007
Wikipedia corrigindo a Britânica « Por Que Jogar o Papel no Vaso?

[…] corrigindo a Britânica 14 10 2007 Há um tempo atrás, escrevi sobre a credibilidade da Wikipedia frente as outras enciclopédias tradicionais, como Barsa e a […]

1 11 2007
(re)iniciando « (con) fissão nuclear

[…] Por que o Wikipedia dificultou a vida dos professores. […]

13 10 2008
Michele

Não vejo culpa na Wikipedia procura e usa quem quer.

13 10 2008
Michele

Não vejo culpa na Wikipedia procura e usa quem quer.

Michele
http://www.webmonografias.com.br/

23 12 2008
meujoystick

Na verdade existe sim muita diferença entre transcrever um texto que pesquisávamos nos livros (que poderia ou não ser a Barsa) e o popular CTRL+C – CTRL+V.

Além de manter o hábito de ir à biblioteca, a simples transcrição já funcionava como memorização do assunto. Ler e transcrever o texto é muito mais eficiente para a memorização e aprendizado do que simplesmente ler.

Nem tudo é “tão ruim” que não pode ser piorado… Pior do que o aluno ler porcamente e copiar o texto da Wikipedia para um trabalho… pior que o professor não se dar ao trabalho de dominar o que deveria ensinar… Pior que isso tudo é saber que os alunos passam de ano sem saber NADA.

É pena eu não ser burro. Não sofria tanto! ( Raul Seixas)

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